Esta atividade de Língua Portuguesa tem como base o DC/GO – Ampliado e está destinada a estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental.

A importância do pronome na autodeclaração racial
Se alguém te perguntasse “quem é você?”, como você responderia? Talvez você diria seu nome, sua idade, onde mora, além dos seus gostos, da sua família, das coisas que ama fazer. Mas já pensou que existe algo muito importante nessa resposta que, muitas vezes, é deixado de lado? É a sua identidade racial.
Muitas pessoas pretas, pardas e indígenas já ouviram que deveriam “esconder” ou “não falar” sobre sua cor ou raça. Mas hoje, é cada vez mais importante que todos possam dizer com orgulho quem são, e isso inclui sua raça, cor, origem e história.
Videira, Oliveira e Penha (2020) explicam que, a sociedade brasileira, marcada pelo colonialismo europeu, ainda enfrenta um processo de desvalorização de quaisquer elementos ligados à África, como pessoas, histórias e crenças, por exemplo. Esse fato intensifica os desafios enfrentados pela juventude negra, como o preconceito e a exclusão social.
Inserida nesse contexto, a população negra muitas vezes “é colocada à margem da sociedade e vista como inferior, no contexto em que se ensina que, para ser aceito, é necessário negar a si mesmo” (Videira, Oliveira, Pena, 2020, p. 187). A juventude negra vivencia um processo de negação de sua identidade, inclusive, dentro da escola, um espaço essencial na formação dos jovens.
Nesse cenário, como os autores Videira, Oliveira e Penha (2020) defendem, é necessário compreender que assumir-se como negro é um gesto desafiador, pois contraria o padrão branco-europeu dominante no Brasil, onde, de forma simbólica e ideológica, a ideia de beleza, higiene e de excelência artística, por exemplo, costuma ser associada às pessoas brancas.
Entre tantas questões e desafios, é aí que entra a linguagem. O jeito como falamos, especialmente quando usamos certos pronomes, tem muito a ver com afirmação e pertencimento.
Os pronomes pessoais são palavras que usamos para nos referir às pessoas do discurso:
Pessoa do discurso | Singular | Plural |
1ª pessoa | eu | nós |
2ª pessoa | tu/você | vós/vocês |
3ª pessoa | ele/ela | eles/elas |
A 1ª pessoa é usada quando falamos de nós mesmos. A 2ª pessoa é usada quando falamos com alguém. A 3ª pessoa é usada quando falamos de outra pessoa.
Exemplos:
Eu sou estudante. (1ª pessoa)
Você está feliz hoje? (2ª pessoa)
Ela gosta de música. (3ª pessoa)
Em muitos textos, falas, vídeos e músicas, usar o pronome “eu” é uma maneira de afirmar a própria identidade. Quando alguém diz, por exemplo:
“Eu sou negra, sou nordestina e tenho orgulho da minha história.”
Essa pessoa está se apresentando com força, coragem e pertencimento. Em outras palavras, está dizendo que ela existe, resiste e tem uma história que precisa ser respeitada. Dita na 3ª pessoa, essa frase apresentaria certo distanciamento, uma vez que quem fala não está se colocando como sujeito da própria experiência. Por isso, na luta por igualdade racial, usar o pronome “eu” tem um valor simbólico e político muito forte: é uma forma de autodeclaração, empoderamento e de dizer “ninguém vai falar por mim, eu mesmo vou contar minha história”.
A autodeclaração é um termo amplo para um documento ou declaração em que alguém afirma algo sobre si mesmo. Geralmente, está associada a comprovação ou registro. Além do mais, a autodeclaração é uma forma de autoafirmação, onde a pessoa declara informações sobre sua identidade, condição, ou situação como, por exemplo, gênero, cor e raça.
Autodeclaração racial
No Brasil, a autodeclaração racial é o direito que cada pessoa tem de dizer qual é sua cor ou raça. Isso é importante para que o país conheça sua diversidade e também para garantir políticas de equidade racial, como as cotas nas universidades e nos concursos públicos.
O termo “autodeclaração” está previsto no art. 1º, inciso IV, do Estatuto da Igualdade Racial (Lei n. 12.288/2010), no art. 3º da lei de cotas do Ensino Superior (Lei n. 12.711/2012) e no art. 2º da lei de cotas no serviço público (Lei n. 12.990/2014). O termo também está presente na Recomendação n. 41 do Conselho Nacional do Ministério Público (Brasil, 2016) e na Portaria Normativa n. 04 do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (Brasil, 2018).
Por muito tempo, o racismo fez com que muitas pessoas tivessem vergonha de sua cor. Mas isso está mudando. Cada vez mais, jovens e adultos estão dizendo com orgulho:
“Eu sou preto!”
“Eu sou parda!
“Eu sou indígena!”
“Eu sou amarelo!”
“Eu tenho orgulho do meu povo!”
Dizer isso não é separar as pessoas. É reconhecer as diferenças, valorizar a diversidade e lutar por uma sociedade mais justa. Sabemos que a linguagem não é neutra, e tudo o que falamos ou escrevemos comunica algo. Por isso, quando usamos pronomes como “eu”, “nós”, “eles”, estamos também mostrando quem fala, de onde fala e por que fala.
Assista à videoaula do professor Marlon Santos com essa temática.
Responda às questões a seguir.
QUESTÃO 1
Você concorda com a afirmativa de que “a linguagem não é neutra”? Justifique sua resposta.
QUESTÃO 2
Por que usar o pronome pessoal da primeira pessoa pode ser considerado um ato político? Explique relacionando linguagem e ideologia.
QUESTÃO 3
Escreva um pequeno texto em que você se apresenta para o mundo. Diga quem é você, suas origens, do que você se orgulha, e o que gostaria que as pessoas soubessem sobre você. Use a 1ª pessoa com intenção, ele é o ponto de partida da sua voz no mundo. Escolha um título que te represente.
QUESTÃO 4
Vinícius vai se inscrever para um concurso público que reserva vagas para candidatos negros. No formulário de inscrição, há um campo para autodeclaração racial. Para preencher corretamente essa parte do documento, Vinícius deve
(A) pedir para um amigo escrever a declaração por ele, já que é algo pessoal.
(B) copiar a autodeclaração de outra pessoa que também se inscreveu.
(C) declarar sua cor ou raça de acordo com sua identidade e pertencimento.
(D) deixar o campo em branco para evitar se expor.
QUESTÃO 5
Em uma roda de conversa sobre identidade racial, Paula diz:
“Eu sou negra, tenho orgulho da minha história e quero que minha voz seja ouvida.”
O uso do pronome “eu” nessa fala representa
(A) uma tentativa de falar por todas as pessoas negras.
(B) Um distanciamento da própria experiência.
(C) a afirmação pessoal de identidade, assumindo seu lugar de fala.
(D) a negação de sua origem e história.
QUESTÃO 6
Durante um evento, um estudante indígena diz:
“Nós, povos originários, continuamos defendendo nossa cultura e nossos direitos.”
O uso do pronome “nós” nesse contexto
(A) demonstra que ele está falando em nome de todos os brasileiros.
(B) mostra união entre pessoas que compartilham a mesma identidade e luta.
(C) indica que ele prefere não se identificar individualmente.
(D) não demonstra relação com resistência ou identidade cultural.
Autoria: | Marlon Santos |
Formação: | Letras – Português |
Componente curricular: | Língua Portuguesa |
Conteúdo(s)/Objeto(s) de conhecimento | Exploração da semiose |
Habilidade estruturante: | GO-EF89LP39) Compreender que o sentido se constitui na relação entre interlocutores no uso da língua, frente às condições sociais de produção do enunciado. |
Referências: | Documento Curricular para Goiás (DC-GO). Goiânia/GO: CONSED/ UNDIME Goiás, 2018. Disponível em: <https://cee.go.gov.br> Acesso em: 03, fev. 2025 BRASIL. Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012 Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2012b. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm Acesso em: 27 jul. 2021. BRASIL. Lei n. 12.990, de 9 de junho de 2014 Reserva aos negros 20,0% (vinte por cento) das vagas oferecidas nos concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União. Brasília, DF: Presidência da República, 2014. BRASIL. Recomendação n. 41, de 9 de agosto de 2016 Define parâmetros para a atuação dos membros do Ministério Público brasileiro para a correta implementação da política de cotas étnico-raciais em vestibulares e concursos públicos. Brasília, DF: Conselho Nacional do Ministério Público, 2016a. Disponível em: http://www.cnmp.mp.br/portal/atos-e-normas/norma/4343/ Acesso em: 27 jul. 2021. BRASIL. Superior Tribunal Federal. Ação Declaratória de Inconstitucionalidade n. 4275. Relator: Min. Marco Aurélio. Diário da Justiça Eletrônico, Brasília, DF, 01 mar. 2018. Disponível em: http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=2691371 Acesso em: 27 jul. 2021. CAMILLOTO, Bruno.; CAMILLOTO, Camila. Comissões de heteroidentificação racial: por que os sinos deveriam dobrar? Seção Especial: Ações afirmativas de promoção da igualdade racial na educação: lutas, conquistas e desafios. Educação & Sociedade, Campinas, v. 43, e254673, 2022. p. 1-18. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/ES.254673> VIDEIRA, Piedade Lino; OLIVEIRA, Wesley Vaz; PENHA, Sabrina Silva. AUTODECLARAÇÃO RACIAL E DESDOBRAMENTOS EDUCACIONAIS NA ESCOLA ESTADUAL GENERAL AZEVEDO COSTA. Revista Teias, Rio de Janeiro , v. 21, n. 62, p. 186-202, jul. 2020 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-03052020000500186&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 06 ago. 2025. Epub 09-Fev-2022. https://doi.org/10.12957/teias.%y.48594. |