Esta atividade de Língua Portuguesa tem como base o DC/GO – Ampliado e está destinada a estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental.

O conflito gerador do enredo
Quando lemos uma história, percebemos que ela não é apenas uma sequência de acontecimentos soltos. Normalmente, existe uma situação ou problema central que movimenta a narrativa, é isso que chamamos de conflito gerador do enredo.
O conflito é a situação de tensão ou desafio que os personagens precisam enfrentar. Ele é o motor da história: sem ele, não haveria motivo para as ações dos personagens ou para o interesse do leitor.
Ele recebe esse nome porque gera todo o desenvolvimento do enredo. A partir dele, surgem as ações, os diálogos e as reviravoltas da história.
Os conflitos podem acontecer de diferentes formas:
Conflito interno: ocorre dentro do próprio personagem, que precisa lidar com emoções, dúvidas ou dilemas. Por exemplo, um jovem que precisa escolher entre seguir a profissão dos sonhos ou atender às expectativas da família.
Conflito externo: acontece entre personagens ou entre o personagem e forças externas, como a sociedade, a natureza ou o destino. Por exemplo, um herói que enfrenta um vilão para salvar uma cidade.
Para encontrar o conflito gerador, cabe ao leitor:
- Ler atentamente o início da história, se atentando para o momento em que algo muda na rotina dos personagens.
- Observe o problema principal, identificando se há e qual é o desafio ou obstáculo que precisa ser superado.
- Identificar quem está envolvido, geralmente, o protagonista e um antagonista (que pode ser uma pessoa, uma situação ou até um sentimento).
- Perceber o impacto dos acontecimentos no enredo e se os acontecimentos seguintes estão relacionados à situação inicial. Se sim, o leitor encontrou o conflito gerador.
Por exemplo, na clássica história da Chapeuzinho Vermelho, o conflito gerador acontece quando o lobo decide enganar a menina para comer ela e sua avó. Esse problema move toda a narrativa até o desfecho.
Além de identificar o conflito em uma história durante a leitura, compreender essa construção narrativa é importante para a produção de textos literários. Se uma história não tem um bom conflito estabelecido, pode ser difícil prender a atenção do leitor.
Assista à videoaula do professor Marlon Santos com essa temática.
Responda às questões a seguir.
Leia o seguinte fragmento do romance “Cinco Minutos”, de José de Alencar, para responder às questões.
A D…
I
É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história, e não um romance.
Há mais de dois anos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para tomar o ônibus de Andaraí.
Sabe que sou o homem o menos pontual que há neste mundo; entre os meus imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade, essa virtude dos reis, e esse mau costume dos ingleses.
Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algum que um homem se escravize ao seu relógio e regule as suas ações pelo movimento de uma pequena agulha de aço ou pelas oscilações de uma pêndula.
Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais ônibus algum; o empregado a quem me dirigi respondeu :
— Partiu há cinco minutos.
Resignei-me, e esperei pelo ônibus de sete horas.
Anoiteceu.
Fazia uma noite de inverno fresca e úmida; o céu estava calmo, mas sem estrelas.
À hora marcada chegou o ônibus, e apressei-me a ir tomar o meu lugar.
Procurei, como costumo, o fundo do carro, a fim de ficar livre das conversas monótonas dos recebedores, que de ordinário têm sempre uma anedota insípida a contar, ou uma queixa a fazer sobre o mau estado dos caminhos.
O canto já estava ocupado por um monte de sedas, que deixou escapar-se um ligeiro farfalhar, conchegando-se para dar-me lugar.
Sentei-me; prefiro sempre o contato da seda à vizinhança da casimira ou do pano.
O meu primeiro cuidado foi ver se conseguia descobrir o rosto e as formas que se escondiam nessas nuvens de seda e de rendas.
Era impossível.
Além da noite estar escura, um maldito véu que caía de um chapeuzinho de palha não me deixava a menor esperança.
Resignei-me, e assentei que o melhor era cuidar de outra coisa.
Já o meu pensamento tinha-se lançado a galope pelo mundo da fantasia, quando de repente fui obrigado a voltar por uma circunstância bem simples.
Senti no meu braço o contato suave de um outro braço, que me parecia macio e aveludado como uma folha de rosa.
Quis recuar, mas não tive ânimo; deixei-me ficar na mesma posição, e cismei que estava sentado perto de uma mulher que me amava e que se apoiava sobre mim.
Pouco e pouco fui cedendo àquela atração irresistível e reclinando-me insensivelmente; a pressão tornou-se mais forte; senti o seu ombro tocar de leve o meu peito; e a minha mão impaciente encontrou uma mãozinha delicada e mimosa, que se deixou apertar a medo.
Assim, fascinado ao mesmo tempo pela minha ilusão e por este contato voluptuoso, esqueci-me, a ponto que, sem saber o que fazia, inclinei a cabeça e colei os meus lábios ardentes nesse ombro, que estremecia de emoção.
Ela soltou um grito, que foi tomado naturalmente como susto causado pelos solavancos do ônibus, e refugiou-se no canto.
Meio arrependido do que tinha feito, voltei-me como para olhar pela portinhola do carro, e, aproximando-me dela, disse-lhe quase ao ouvido:
— Perdão!
Não respondeu; conchegou-se ainda mais ao canto.
Tomei uma resolução heróica.
— Vou descer, não a incomodarei mais.
Ditas estas palavras rapidamente, de modo que só ela ouvisse, inclinei-me para mandar parar.
Mas senti outra vez a sua mãozinha, que apertava docemente a minha, como para impedir-me de sair.
ALENCAR. José de. Cinco Minutos; A viuvinha. 30 ed. São Paulo: Ática, 2011, p. 13-14.
QUESTÃO 1
Quando o narrador personagem escreve para sua interlocutora “Mas é uma história, e não um romance”, o que ele está sugerindo sobre a narrativa?
QUESTÃO 2
O narrador afirma não ter o hábito da pontualidade. Explique como essa característica influencia o desenrolar da história.
QUESTÃO 3
O narrador prefere sentar-se no fundo do ônibus porque
(A) quer ficar perto da janela.
(B) evita as conversas dos recebedores.
(C) gosta de dormir enquanto viaja.
(D) quer observar a rua na noite enluarada.
QUESTÃO 4
No trecho “prefiro sempre o contato da seda à vizinhança da casimira ou do pano”, é possível inferir, alegoricamente, que o narrador
(A) é uma pessoa que valoriza conforto e requinte, por isso evita ônibus.
(B) é uma pessoa que prefere usar roupas simples e rústicas.
(C) é alguém indiferente à qualidade dos tecidos que as pessoas usam.
(D) prefere sentar-se ao lado das mulheres do que dos homens.
QUESTÃO 5
O conflito gerador até este ponto da narrativa é
(A) o atraso do narrador personagem para embarcar em um ônibus.
(B) a interação ambígua e inesperada entre o narrador e a dama.
(C) o mau estado das estradas percorridas pelo ônibus naquela noite.
(D) o grito da passageira que foi abafado pelos solavancos do ônibus.
QUESTÃO 6
O que podemos inferir sobre a reação da mulher ao grito e, posteriormente, ao segurar a mão do narrador para impedi-lo de sair?
QUESTÃO 7
O ambiente noturno e frio no interior de um ônibus contribui para
(A) criar um clima de mistério e intimidade.
(B) mostrar a beleza da paisagem da cidade.
(C) indicar perigo das estradas esburacadas.
(D) reforçar o mau humor do narrador personagem.
Autoria: | Marlon Santos |
Formação: | Letras – Português |
Componente curricular: | Língua Portuguesa |
Conteúdo(s)/Objeto(s) de conhecimento | Exploração da semiose |
Habilidades estruturantes: | (EF69LP05) Inferir e justificar, em textos multissemióticos – tirinhas, charges, memes, gifs etc. –, o efeito de humor, ironia e/ou crítica pelo uso ambíguo de palavras, expressões ou imagens ambíguas, de clichês, de recursos iconográficos, de pontuação etc. (EF67LP30-B) Observar os elementos da estrutura narrativa próprios ao gênero pretendido, tais como enredo, personagens, tempo, espaço e narrador. |
Descritores: | D1 – Localizar informações explícitas em um texto. D4 – Inferir uma informação implícita em um texto. D10 – Identificar o conflito gerador do enredo e os elementos que constroem a narrativa. |
Referências: | Documento Curricular para Goiás (DC-GO). Goiânia/GO: CONSED/ UNDIME Goiás, 2018. Disponível em: <https://cee.go.gov.br> Acesso em: 03, fev. 2025 CEREJA, Willian Roberto; CLETO, Ciley. Interpretação de textos: desenvolvendo a competência leitora 8º ano. São Paulo: Atual, 2013. |